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Toda vez que uma marca completa 50 anos, a tentação é contar a história pelos números. E os da CG são daqueles de calar qualquer plateia: mais de 15 milhões de unidades, o veículo mais vendido da história do Brasil, o primeiro produto fabricado pela Honda em solo nacional e o modelo mais antigo da marca ainda em linha por aqui. Impressiona. Mas, se você me perguntar, nenhum desses números explica de verdade o que a CG significa. Por isso, gostei tanto do caminho que a Honda escolheu para comemorar a data.
Em vez de erguer um monumento de estatísticas, a marca lançou uma websérie de 16 episódios — exibidos semanalmente, às segundas, até outubro — para contar histórias reais. Não de pilotos profissionais, não de recordes, mas de gente comum: clientes, colaboradores e concessionários espalhados pelo país, cuja vida mudou de rumo por causa de uma CG. O primeiro episódio já dá o tom. É a história de Jefferson Gomes, de Jundiaí, que na pandemia comprou uma CG 125 de 1981, a velha e querida “Bolinha”, para fazer as entregas da sua hamburgueria. A moto virou atração, despertou uma paixão e acabou empurrando o rapaz para uma nova profissão, comercializando clássicas. Uma motoca de quarenta e poucos anos reescrevendo o destino de alguém em pleno 2020. Se isso não é poesia sobre duas rodas, eu não sei o que é.

Vou confessar por que essa campanha me pegou de um jeito diferente. Eu nasci em 1976 — o mesmo ano em que a CG começou a rodar pelas ruas brasileiras. Cresci, portanto, lado a lado com ela, vendo essa moto ser o primeiro veículo do vizinho, a ferramenta de trabalho do entregador, o sonho de liberdade do moleque que juntou meses de salário. A CG nunca foi a mais bonita, a mais rápida ou a mais sofisticada, e nunca quis ser. Ela foi outra coisa, talvez mais difícil: foi confiável quando a vida não era. Pegava no frio, aguentava a estrada ruim, perdoava a manutenção atrasada e estava sempre lá na manhã seguinte, pronta para mais um dia de luta. Pinta de heroína improvável, dessas que a gente só reconhece com o tempo.
É por isso que falo, sem medo de exagerar, que a CG não vendeu 15 milhões de motos. Ela vendeu 15 milhões de histórias. Cada uma daquelas unidades virou primeiro emprego, virou negócio próprio, virou a viagem que mudou a cabeça de alguém, virou independência para quem nunca tinha tido nada só seu. A genialidade da websérie é justamente essa: entender que o patrimônio da CG não está guardado num museu nem numa planilha de vendas, mas espalhado pelas garagens, pelas oficinas e pelas memórias de um país inteiro. A moto só foi o veículo. O motor de verdade sempre foram as pessoas.
Há, claro, o lado racional que sustentou tudo isso, e seria injusto ignorá-lo. Durabilidade, economia e confiabilidade não são adjetivos de marketing quando se atravessa cinco décadas mantendo a mesma reputação. Foi essa tríade que transformou a CG de produto em instituição, e que permitiu que ela acompanhasse as gerações sem perder a essência, mesmo com toda a evolução tecnológica do caminho. Mas o ponto que quero deixar é outro: tecnologia, qualquer marca, com esforço, alcança. Confiança, só o tempo concede. E a CG teve cinco décadas para conquistar a do brasileiro, uma viagem de cada vez.
Então, neste meio século, meu chapéu se levanta menos para a engenharia e mais para a decisão de celebrar com humildade. A Honda criou até uma plataforma, a hubcg50anos.com.br, onde qualquer um pode assistir aos episódios e, melhor ainda, compartilhar a própria história com a moto. É um convite bonito, e eu faço o mesmo aqui de dentro do nosso portal: se você tem uma história com uma CG, conte para a gente. Porque no fim, quando a poeira dos números assenta, é isso que sobra — não a moto que a Honda fabricou, mas as vidas que ela ajudou a colocar em movimento. Parabéns, CG. E obrigado por ter andado junto com tanta gente, inclusive comigo, por todo esse caminho.













