Brasil | Educação de Pilotagem
Toda vez que uma concessionária de energia decide colocar motos na linha de frente do atendimento emergencial, ela está apostando em algo que, há uma década, era tratado como risco alto demais para se correr. A Enel Distribuição São Paulo acaba de anunciar a ampliação do seu projeto de motoeletricistas: iniciado em dezembro de 2024 com apenas 12 profissionais, o programa já conta com 112 motociclistas atuando nos 24 municípios da concessão. Segundo a companhia, o tempo médio de deslocamento até as ocorrências caiu de 38 para 26 minutos, uma redução de até 30% em relação às equipes que dependem de caminhões, permitindo inspeções técnicas, isolamento de áreas de risco, poda emergencial e restabelecimento de energia com muito mais agilidade.
É uma notícia boa e bem-vinda. Mas ela carrega, sem citar, uma história que começou quase dez anos antes — e que o próprio acervo documental da concessionária, hoje em posse do Método M.O.T.O., ajuda a reconstituir com precisão.
A mesma concessão, décadas de história
Antes de qualquer coisa, vale entender que Enel Distribuição São Paulo e AES Eletropaulo não são empresas diferentes, mas capítulos sucessivos da mesma concessão. Em junho de 2018, o grupo italiano Enel arrematou o controle acionário da Eletropaulo — até então controlada pela AES Corporation — em leilão na B3, negócio concluído e homologado em dezembro daquele ano. Com a operação, a marca AES Eletropaulo deixou de existir e nasceu a Enel Distribuição São Paulo, mantendo a mesma área de concessão: os mesmos 24 municípios da região metropolitana de São Paulo que a AES atendia, e que a Enel menciona textualmente na notícia sobre os motoeletricistas de hoje. A frota mudou de dono, mas a malha, os desafios operacionais e — como os documentos mostram — boa parte do know-how de campo atravessaram a transição.

2015: o ano em que tudo começou
É preciso voltar à AES Eletropaulo de 2015 para entender a raiz do problema que originou esse modelo. Como maior distribuidora de energia do Brasil em volume distribuído, a companhia operava numa área de concessão de altíssima densidade — mais de 1,5 mil unidades consumidoras por km², o dobro da segunda colocada do país — atendendo mais de 20 milhões de habitantes. Parte relevante da força de trabalho, sobretudo equipes de campo, já usava motocicleta no deslocamento entre casa e trabalho e na própria operação, e a companhia via crescer um problema silencioso: os acidentes de trajeto envolvendo motociclistas.

Foi nesse cenário que a AES Eletropaulo contratou a empresa hoje conhecida como Método M.O.T.O. — à época operando comercialmente como Moto do Brasil (M.O.T.O.), para desenvolver um programa de pilotagem preventiva. Segundo carta oficial de divulgação de resultados emitida pela própria AES Eletropaulo, a parceria foi iniciada em maio de 2015, e 1187 colaboradores foram capacitados entre maio e dezembro daquele ano. O trabalho não se limitou à sala de aula — envolveu também o desenvolvimento de manual de pilotagem segura e práticas de campo durante dias de treinamento organizado na sede da empresa.

O resultado, medido pela própria concessionária, foi expressivo: uma redução de 91% nas ocorrências de acidentes envolvendo motocicleta entre os colaboradores. O caso ganhou capa de reportagem na edição de fevereiro de 2016 da revista CIPA, sob o título “Percurso Seguro”, como referência nacional em prevenção de acidentes de trajeto — um reconhecimento editorial independente, e não apenas institucional, para o trabalho.



O projeto pioneiro dos motoeletricistas
Animada pelos resultados, a AES Eletropaulo deu um passo além. Diante da demanda por novas equipes de pronto atendimento solicitada pela ANEEL, a companhia decidiu formar sua primeira geração de motoeletricistas — profissionais que fariam parte do atendimento emergencial da rede diretamente de moto, e não apenas o deslocamento casa-trabalho. Era, nas palavras da própria direção de segurança da AES Brasil, um projeto pioneiro no país, e o ponto mais sensível era justamente o risco da pilotagem — motivo pelo qual a implementação havia sido adiada por anos.

A formação, novamente conduzida pelo Método M.O.T.O., capacitou 180 motoeletricistas, com as equipes entrando em operação efetiva em 29 de janeiro de 2016, e resultou em novo manual de operação e pilotagem segura, além de consultoria para adaptações físicas nas próprias motocicletas de trabalho, incluindo componentes internos do baú para fixação e suporte de ferramentas, pensados especificamente para a rotina de campo dos eletricitários. O resultado da primeira medição formal, documentada em carta da diretoria de Segurança do Trabalho, Saúde Ocupacional e Meio Ambiente da AES Brasil, foi notável: em pouco mais de doze meses de operação das equipes de moto, houve apenas um acidente registrado, de natureza leve — um tombamento de moto parada, sem qualquer lesão ao piloto —, resultando num índice de segurança de 99,29% no período. Em atualização enviada no fim de 2016, a companhia registrou uma redução de 91,72% nos acidentes de trajeto, comparando os patamares de 2014 e 2015 e consolidando os dados até dezembro daquele ano.

O impacto do programa extrapolou os muros da concessionária paulista. Segundo a própria correspondência da diretoria da AES Brasil, o projeto foi apresentado como benchmark na “EHS Month Leaders” para todas as unidades de negócio (SBUs) do grupo AES ao redor do mundo, e também levado à 2ª edição do Corporate Health Conference, realizado em São Paulo. Em carta assinada pelo diretor de Segurança do Trabalho da AES Brasil, a empresa reconheceu textualmente que, após cinco anos de tentativas anteriores sem sucesso — por meio de palestras e workshops —, foi somente com a contratação do trabalho hoje representado pelo Método M.O.T.O. que os resultados vieram, chegando a afirmar que a companhia se tornou referência nacional no assunto, a ponto de outras energéticas do país buscarem o mesmo modelo.

Da AES à Enel: o legado que continua rodando
Nove anos depois daquela primeira turma de 2015, os elementos centrais do programa atual da Enel soam extremamente familiares a quem acompanhou a origem da história. A concessionária hoje destaca que todos os motoeletricistas passam por treinamento de pilotagem e direção defensiva antes de entrar em campo — exatamente o pilar sobre o qual o programa original foi construído. Os baús das motocicletas, hoje equipados para transportar vara telescópica, cabeçotes de poda e dispositivos de manobra em carga, seguem a mesma lógica de adaptação física da moto de trabalho iniciada naquele momento inaugural, e aliás devem ser os mesmos equipamentos desenvlvidos à época, e configurados com a nosa identidade visual da ENEL. E o cuidado com o equipamento de proteção individual, hoje incluindo jaquetas com sistema de airbag, é a manutenção de uma cultura de segurança que, à época, já colocava capacete, luva, jaqueta com dispositivos extras de segurança (airbag), bota e antena como itens inegociáveis de qualquer capacitação.

Não se trata de dizer que a operação de hoje é uma cópia exata daquela de 2015 e 2016 — a tecnologia dos equipamentos avançou, a frota cresceu e a companhia mudou de mãos. Mas o modelo conceitual que sustenta o programa atual da Enel — pilotagem segura como pré-requisito, moto adaptada como ferramenta de trabalho, e não apenas meio de transporte, e redução mensurável de acidentes como métrica central de sucesso — é, ponto a ponto, o mesmo desenhado e implementado pelo Método M.O.T.O. dentro da concessionária que viria a se tornar Enel Distribuição São Paulo. A metodologia atravessou a troca de controle acionário porque resolveu um problema real, com dados que a própria companhia validou, publicou e levou para o mundo como case de sucesso.
Um capítulo que a história do setor não pode esquecer
Fica, portanto, o registro para o leitor e para o setor elétrico como um todo: quando se fala hoje em motoeletricistas, pilotagem preventiva corporativa ou uso estratégico de motocicletas no atendimento emergencial no Brasil, é impossível contar essa história sem voltar a 2015, à AES Eletropaulo e ao trabalho pioneiro do Método M.O.T.O. Foi ali que se provou, com números auditados pela própria contratante, que colocar motocicletas de forma segura e planejada no centro da operação de campo de uma concessionária de energia não era risco — era solução. Quase uma década depois, com a Enel ampliando sua frota de motoeletricistas e colhendo ganhos de eficiência que impactam diretamente milhões de paulistanos, o legado daquele projeto pioneiro segue rodando pelas ruas de São Paulo, ainda que poucos saibam contar de onde ele realmente veio.
Saber que uma parte desse legado carrega a digital do Método M.O.T.O., é o tipo de orgulho que nenhuma planilha de resultados descreve por completo. Não se tratava apenas de ensinar a pilotar melhor: tratava-se de ajudar a manter luz, segurança e normalidade na vida de milhões de paulistanos que talvez nunca saibam o nome de quem passou por trás daquele projeto. Ser parte, mesmo que discretamente, de uma engrenagem que segue girando quase uma década depois e continuando a servir a maior cidade do país é, no fim, a melhor definição possível de trabalho bem-feito.














