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Poucas categorias do motociclismo carregam tanto romantismo quanto a dual-sport: motos street-legal com alma de off-road, capazes de sair do asfalto e seguir trilha adentro sem pedir licença. O Japão historicamente lidera esse território, mas nos últimos anos o catálogo japonês andou estagnado. Isso mudou quando a Suzuki finalmente aposentou a veterana DR-Z400 — que rodou praticamente sem grandes mudanças por mais de vinte anos — e apresentou a DR-Z4S, agora de frente com a Honda CRF450RL, referência mais orientada à performance da categoria desde seu lançamento em 2019.

Motor: caráter esportivo contra suavidade
No dinamômetro, a Honda leva vantagem numérica clara. O motor monocilíndrico de 449,7 cm³ da CRF450RL entrega a marca de 36 cv a 7.800 rpm e cerca de 3,7 kgf.m de torque a 6.500 rpm, superando os 32,2 cv a 8.100 rpm e 3,3 kgf.m da Suzuki, cujo motor tem 398 cm³. Mas o teste revelou algo mais interessante que os números: são propulsores com personalidades opostas. A Honda pede giro — a potência está lá, mas é preciso buscá-la lá em cima, e em terreno mais técnico isso exige trocas de marcha mais frequentes. A Suzuki, mesmo com menos cavalos, raramente parece sem fôlego: entrega a força de forma mais distribuída e “coopera” com o piloto, permitindo manter a marcha engatada em situações em que a Honda pediria uma reduzida.

Suspensão: a surpresa do teste
Se o motor já revelava contrastes, a parte ciclística surpreendeu ainda mais os testadores. Apesar de pesar cerca de 19 kg a mais que a Honda — 149 kg contra 131 kg em ordem de marcha —, a Suzuki entregou uma suspensão descrita como notavelmente mais complacente sobre terreno irregular, absorvendo pedras e raízes com uma suavidade que fez a Honda parecer, por comparação, dura e transmitindo mais impacto ao guidão. A CRF450RL, por outro lado, mostrou-se mais precisa e ágil em trechos rápidos e abertos, recompensando quem pilota de forma mais agressiva — ainda que o trem dianteiro tenha sido apontado como um pouco impreciso em alguns momentos. Resumindo o espírito do comparativo: a Honda convida a pilotar mais forte, a Suzuki convida a rodar mais longe.

Eletrônica: a virada de chave da Suzuki
Aqui está talvez a mudança mais significativa depois de vinte anos de espera. A DR-Z4S estreou o sistema S.I.R.S. (Suzuki Intelligent Ride System), com três níveis de entrega de potência, quatro configurações de controle de tração e três modos de ABS, incluindo a opção de desligar apenas o traseiro. No teste, o ABS dianteiro chegou a evitar uma queda em uma curva de raio decrescente mal calculada. A Honda, em contraste, manteve sua postura tradicional: sem modos de pilotagem, sem controle de tração, sem rede eletrônica de segurança — uma escolha que agrada quem já é experiente na categoria, mas que pode pesar a favor da Suzuki para quem vem de motos de rua mais modernas.

Diferenças práticas: estrada, conforto e propósito
No dia a dia rodoviário, o câmbio de seis marchas da Honda se mostrou mais relaxado em velocidades de estrada, enquanto a caixa de cinco marchas da Suzuki trabalha mais a partir de certos patamares de velocidade. Em compensação, a DR-Z4S compensa com banco mais confortável, altura de assento menor e pedaleiras para garupa — detalhes que a credenciam como a opção mais versátil para quem quer uma moto só, capaz de rodar bem na cidade, na estrada e na trilha sem exigir tanto do piloto.
Especificações comparadas
| Item | Honda CRF450RL | Suzuki DR-Z4S |
|---|---|---|
| Motor | Mono 449,7 cm³, líquido, Unicam, 4V | Mono 398 cm³, líquido, DOHC |
| Potência | ~36 cv a 7.800 rpm | ~32,7 cv a 8.100 rpm |
| Torque | ~3,7 kgf.m a 6.500 rpm | ~3,3 kgf.m a 6.500 rpm |
| Câmbio | 6 marchas | 5 marchas |
| Suspensão diant. | Showa invertida, 304 mm curso | KYB invertida, 279 mm curso |
| Altura do banco | 945 mm | 920 mm |
| Peso (ordem de marcha) | ~131 kg | ~149 kg |
| Tanque | 7,6 litros | 8,7 litros |
| Eletrônica | Nenhuma (sem modos/TC/ABS desligável) | 3 modos de potência, TC, ABS configurável |
| Preço (EUA, referência) | US$ 10.099 | US$ 8.999 |

Qual leva pra garagem?
O teste não aponta vencedora única, e talvez essa seja a conclusão mais honesta possível. A Honda é a moto de performance mais pura: mais leve, mais potente, com resposta mais afiada — a escolha natural para quem já vem de motocross e quer uma dual-sport com alma de competição. A Suzuki, por sua vez, pode ser a dual-sport mais completa das duas: abre mão de pouca performance em troca de mais conforto, mais tecnologia e uma condução mais tolerante em terreno técnico. A escolha, resumindo, depende menos de números e mais do tipo de piloto que se é.

E no Brasil?
Vale o esclarecimento direto para o leitor brasileiro: nem a Honda CRF450RL nem a nova Suzuki DR-Z4S têm venda oficial no Brasil. São modelos homologados para mercados como Estados Unidos e Europa, com foco em dual-sport de alta cilindrada — categoria que, por aqui, praticamente não existe em formato equivalente. O que mais se aproxima do espírito dessas motos no portfólio nacional são propostas como a Honda XR300L Tornado, mas numa cilindrada bem menor e sem o caráter de moto de competição com placa que caracteriza a CRF450RL. Fica o registro como vitrine de tecnologia e como aceno do que ainda falta amadurecer no segmento dual-sport de maior cilindrada no mercado brasileiro — hoje ainda pouco explorado pelas fabricantes por aqui.













