A alma antes da potência: patente revela como a Ducati quer construir sua elétrica de alta performance.

Uma nova patente mostra que a Ducati desenvolve, de forma discreta, uma futura elétrica de alto desempenho — mas o foco não é potência, e sim compactar o conjunto motriz para preservar as proporções e o comportamento típicos da marca. Somada à experiência na MotoE e aos avanços em baterias, a estratégia revela o verdadeiro desafio de Borgo Panigale: fazer uma elétrica que ainda seja uma Ducati.

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Colocar muita potência em uma moto elétrica é a parte fácil. O difícil, para uma marca como a Ducati, é fazer com que essa moto continue se comportando, ocupando o espaço e transmitindo as sensações de uma Ducati. É exatamente esse o desafio que transparece em uma nova patente registrada pela fabricante italiana, que trabalha de forma silenciosa no desenvolvimento de uma futura motocicleta elétrica de alto desempenho. O documento não descreve uma moto pronta, mas revela uma obsessão reveladora: reduzir o tamanho do conjunto formado por motor, bateria, eletrônica e refrigeração, para que a eletrificação não destrua aquilo que faz uma Ducati ser uma Ducati.

O que a patente revela

A solução técnica descrita no registro é engenhosa. O motor elétrico estudado pela marca poderá girar entre 17 mil e 20 mil rpm, com 18.500 rpm como regime preferencial — rotações que lembram mais uma máquina de competição do que um veículo elétrico convencional, que normalmente prioriza motores de baixa rotação e alto torque. Para transformar essa velocidade em força útil, o sistema usa um conjunto de engrenagens que reduz a rotação e multiplica o torque antes de transmiti-lo à roda traseira por uma corrente convencional. Não é um câmbio de várias marchas, e sim uma redução fixa.

O ponto central, porém, é o combate à largura. A Ducati propõe reposicionar o sensor que identifica a posição do rotor — em vez de instalá-lo no eixo transversal do motor, ele iria para uma região posterior do sistema, associado a um dos eixos da redução. As engrenagens, por sua vez, podem ser distribuídas em planos paralelos, aproveitando melhor o espaço e evitando que o conjunto fique largo demais. Pode parecer um detalhe técnico menor, mas em uma motocicleta ele é decisivo: largura e distribuição de massa afetam diretamente a ergonomia, a estabilidade e a agilidade. Ou seja, a Ducati está projetando sua elétrica de dentro para fora, começando pela dirigibilidade.

A escola da MotoE

Esse conhecimento não nasceu do zero. Desde 2023, a Ducati é a fornecedora única do Campeonato Mundial de MotoE, com a V21L, sua primeira motocicleta elétrica, desenvolvida para as pistas. É uma máquina que entrega cerca de 150 cv, gira até 18 mil rpm e pesa 225 kg — número que a marca conseguiu manter relativamente baixo ao priorizar resposta dinâmica em vez de força bruta. Não é coincidência que o motor de altíssima rotação da patente ecoe justamente a filosofia da moto de corrida. Ao competir no mais alto nível com uma elétrica, a Ducati vem acumulando, há anos, um aprendizado precioso em motores, baterias, refrigeração, eletrônica e integração ao chassi — exatamente os ingredientes de uma futura superbike elétrica de rua.

A peça que faltava: a bateria

Se há um obstáculo histórico para uma elétrica esportiva de verdade, ele tem nome: a bateria — pesada, volumosa e lenta para recarregar. E é aqui que a Ducati deu, recentemente, um passo que pode mudar tudo. Em setembro de 2025, a própria V21L foi apresentada rodando com uma bateria de estado sólido, tecnologia considerada o santo graal da eletrificação por ser mais compacta, mais leve e capaz de recargas muito mais rápidas. Foi a primeira vez que uma solução do tipo equipou um veículo em movimento. Unindo as peças — um conjunto motriz compacto na patente e baterias de nova geração cada vez mais densas —, começa a fazer sentido o quebra-cabeça que a marca vem montando nos bastidores.

Estratégia paciente, não pressa

Vale o cuidado de sempre: uma patente não significa que a Ducati confirmou uma moto para produção. O registro apenas indica uma tecnologia em estudo. A postura da marca em relação às elétricas de rua sempre foi de cautela — a fabricante repete que só lançará um modelo quando a tecnologia estiver realmente à altura do nome, sem os compromissos de peso e autonomia que hoje ainda limitam o segmento. O que a patente mostra é que, enquanto espera esse momento, a Ducati não está parada: prepara o terreno técnico para chegar pronta quando decidir agir. Curiosamente, os desenhos do documento sugerem uma moto com proporções próximas às de uma Scrambler, embora a mesma arquitetura possa servir a outros modelos, como uma eventual Hypermotard elétrica.

Mais do que uma moto sem motor a combustão

No fim, o que essa patente conta é uma história sobre identidade, não sobre números. Fazer uma elétrica potente é trivial; qualquer fabricante consegue. O verdadeiro desafio de Borgo Panigale é garantir que uma futura Ducati elétrica não seja apenas “uma moto sem motor a combustão”, mas que preserve as proporções, o comportamento e a emoção que definem a marca há décadas. A obsessão da patente em compactar o conjunto, mais do que em aumentar a potência, mostra que a Ducati entendeu bem qual é a pergunta certa. Resta saber quando ela decidirá respondê-la nas ruas.

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