Brasil | Mercado Nacional
Todo mês, quando a Fenabrave divulga os números de emplacamentos, a tentação é olhar apenas para o topo da lista e constatar o óbvio: a Honda manda no Brasil. Mas os dados de julho de 2026 merecem uma leitura mais atenta, porque revelam transformações profundas na forma como o brasileiro se relaciona com a moto. Foram 199.181 motocicletas emplacadas no mês, alta de 2,55% sobre junho e de 3,11% na comparação com julho de 2025. No acumulado de janeiro a julho, o país já soma 1.373.687 unidades — avanço de 12,37% sobre o mesmo intervalo do ano passado. É um mercado que não apenas cresce: acelera rumo a um patamar inédito.

A CG 160 e a matemática da liderança
Comecemos pelo fato mais previsível e, ainda assim, impressionante. A Honda CG 160 emplacou sozinha 47.493 unidades em julho — um número que supera, isoladamente, a soma de vários modelos que aparecem logo abaixo dela. Para dimensionar: a street da Honda vendeu mais do que a segunda, a terceira e a quarta colocadas juntas. Atrás dela vêm a Honda Biz (21.219), a Honda Pop 110i (19.254) e a NXR 160 Bros (16.512), líder absoluta entre as trails. A Honda ocupa, sozinha, as quatro primeiras posições do país — um domínio que praticamente não tem paralelo na indústria automotiva brasileira.

O fenômeno Mottu: uma locadora no coração do ranking
Aqui mora o dado mais instigante de julho. Na quinta posição geral aparece a Mottu Sport 110i, com 11.397 emplacamentos — à frente de nomes tradicionais como a Yamaha Factor 150. O detalhe que muda tudo: a Mottu não vende motos ao consumidor final. Ela aluga. A empresa, nascida como startup de locação para entregadores, aparece no ranking porque emplaca em seu próprio nome a frota que coloca nas ruas — e essa frota já passa de 198 mil motocicletas em circulação por mais de 170 cidades. Sua produção, feita em Manaus em parceria com a indiana TVS, praticamente dobra a cada ano: saiu de 8 mil unidades no primeiro ano de operação para uma expectativa de cerca de 110 mil em 2026. É a materialização, em números de emplacamento, de um mercado em que a moto deixou de ser sonho de consumo para virar meio de produção. Quando uma locadora figura entre as cinco maiores do país, o recado é claro: o Brasil que compra moto para trabalhar cresceu a ponto de reescrever o ranking.

Cada segmento tem seu rei
Olhar por categorias revela nuances que o ranking geral esconde. Na cidade, a CG 160 reina; entre as cubs, a Biz; nas trails de entrada, a Bros. Mas há disputas curiosas nas faixas de menor volume. A Royal Enfield lidera dois territórios ao mesmo tempo — o custom, com a Hunter 350, e o maxitrail, com a Himalayan 450 —, sinal da consolidação da marca indiana no gosto do brasileiro. A Yamaha domina o segmento naked com a MT-03 e o esportivo com a R15. E no topo da pirâmide, entre as touring, uma Harley-Davidson Road Glide lidera com apenas 55 unidades — número modesto em volume, mas que ilustra bem como o mercado brasileiro se estende do utilitário de trabalho ao objeto de desejo de alto valor.

A corrida pelo terceiro lugar e a nova geração de marcas
Se Honda e Yamaha têm lugar cativo nas duas primeiras posições entre as fabricantes, a briga logo abaixo está fervendo. Em julho, a Shineray fechou o mês em terceiro com 11.476 unidades (5,76%), seguida de perto pela Mottu, com 11.397 (5,72%) — uma diferença de apenas 79 emplacamentos. A Bajaj apareceu em quinto, consolidando presença no top 5. No acumulado do ano, o pelotão intermediário ganha ainda mais nomes: Mottu, Avelloz, Bajaj e Royal Enfield disputam espaço palmo a palmo, evidenciando uma diversificação que era impensável no mercado brasileiro há poucos anos. A velha lógica de duas ou três marcas dominando tudo deu lugar a um tabuleiro muito mais movimentado.

Ranking geral — as 20 mais vendidas em julho de 2026
| Posição | Modelo | Emplacamentos |
|---|---|---|
| 1 | Honda CG 160 | 47.493 |
| 2 | Honda Biz | 21.219 |
| 3 | Honda Pop 110i | 19.254 |
| 4 | Honda NXR 160 Bros | 16.512 |
| 5 | Mottu Sport 110i | 11.397 |
| 6 | Yamaha Factor 150 | 6.121 |
| 7 | Honda CB 300F Twister | 4.270 |
| 8 | Honda PCX 160 | 4.232 |
| 9 | Honda XRE 190 | 4.060 |
| 10 | Yamaha Lander | 3.906 |
| 11 | Yamaha FZ15 | 3.845 |
| 12 | Yamaha FZ25 | 3.815 |
| 13 | Shineray SHI 125 | 3.560 |
| 14 | Honda XRE 300 Sahara | 3.279 |
| 15 | Yamaha Crosser 150 | 2.489 |
| 16 | Honda Elite 125 | 2.481 |
| 17 | Shineray SHI 175 | 2.411 |
| 18 | Yamaha ZR | 1.703 |
| 19 | Yamaha NMAX | 1.608 |
| 20 | Honda ADV 160 | 1.563 |

Líderes por segmento em julho
| Segmento | Modelo | Emplacamentos |
|---|---|---|
| City | Honda CG 160 | 47.493 |
| Cub | Honda Biz | 21.219 |
| Trail | Honda NXR 160 Bros | 16.512 |
| Scooter | Honda PCX 160 | 4.232 |
| Custom | Royal Enfield Hunter 350 | 764 |
| Esportiva | Yamaha R15 | 1.029 |
| Naked | Yamaha MT-03 | 823 |
| Maxitrail | Royal Enfield Himalayan 450 | 660 |
| Touring | Harley-Davidson Road Glide | 55 |
Participação das marcas — julho e acumulado de 2026
| Marca | Julho | Part. | Acumulado 2026 | Part. |
|---|---|---|---|---|
| Honda | 127.399 | 63,96% | 899.355 | 65,47% |
| Yamaha | 28.622 | 14,37% | 189.556 | 13,80% |
| Shineray | 11.476 | 5,76% | 85.145 | 6,20% |
| Mottu | 11.397 | 5,72% | 66.987 | 4,88% |
| Avelloz | — | — | 22.037 | 1,60% |
| Bajaj | 3.371 | 1,69% | 21.367 | 1,56% |
| Royal Enfield | — | — | 20.161 | 1,47% |
Fonte: Fenabrave.
Rumo ao recorde — e o que sustenta a alta
O desempenho de julho não é um ponto fora da curva, e sim parte de uma trajetória. Diante da força do primeiro semestre, a Fenabrave revisou sua projeção para cima e agora estima que o mercado de motos crescerá 10% em 2026, ultrapassando 2,4 milhões de unidades — o que seria um recorde histórico, coroando um ciclo de expansão iniciado no pós-pandemia. Três motores sustentam esse fôlego. O primeiro é o consórcio, que segundo a entidade já responde por cerca de 28% das vendas no país, chegando a até 80% dos negócios em algumas cidades do Nordeste. O segundo é o crédito facilitado, num cenário em que programas de incentivo à renovação de frota ganham tração. E o terceiro, transversal a tudo, é a profissionalização: o programa Move Brasil – Entregadores e Motoapps, voltado a quem usa a moto como ferramenta de trabalho, é apontado pela própria Fenabrave como um dos vetores que devem impulsionar o segundo semestre.
No fim, o ranking de julho é muito mais do que uma tabela de campeões de venda. É um retrato de país: de uma nação que se move sobre duas rodas para trabalhar, que financia a moto com planejamento de longo prazo e que, mesmo diante de um calendário econômico incerto, mantém o setor de motocicletas como um dos poucos em ascensão exponencial. A Honda segue soberana, mas a história mais interessante está nas entrelinhas — no entregador que aluga sua Sport 110i, na marca indiana que conquista o custom, na locadora que virou montadora.
Para quem se inspira nesse mercado aquecido e mira justamente as campeãs de vendas — CG 160, Biz, Bros, PCX ou a XRE 300 Sahara —, vale conhecer de perto na Mila Moto, concessionária Honda com unidades em Jundiaí, Itupeva e Itatiba, no interior de São Paulo, onde a experiência de test drive e o pós-venda cuidadoso ajudam a transformar a moto certa em uma boa decisão de longo prazo.













